sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Natal

Mesa posta. Azevias e filhoses no melhor prato. Uma chávena de cacau. Um cálice de vinho do Porto. Lá fora está frio.
"O frio do Menino Jesus" diz a minha avó. As brasas na braseira não se apagam. O Pai Natal precisa aquecer-se.
"Não queremos dormir" reclamamos, eu e a minha irmã.
Mas está na hora de ir para a cama, senão o Pai Natal não entra pela nossa chaminé.
Lá subimos as escadas barafustando, perguntando e tornando a perguntar: "Mas tens a certeza que ele vem? Ele cabe na nossa chaminé? Será que deixámos pouca comida?" O meu pai cansado, depois de um dia cheio de trabalho (o comércio vende mais na véspera de natal), responde: "Durmam. O Pai Natal não se esquece de vocês."
E se ele se esquece?
Se ele não se lembra de nós? As únicas raparigas da rua? E se as filhoses e azevias da vizinha Helena são melhores que as nossas e ele lá ficar?
Custa tanto ir para cama.
Perna no pijama. Manga, ombros, cabeça. Pijama vestido. Custou tanto. Parecia algo impossível de fazer nessa noite.
Abre cama. Deita. Abre-se a boca com um bocejo. O joão pestana está mesmo à espreita. Mas faço mais força para que olhos continuem abertos.
Eu quero ouvir o Pai Natal chegar. A parede da chaminé é a parede onde está a cama da minha mãe.
Cama, cama.
Beijinho de boa noite, aconchego da mãe, com um sorriso nos lábios. Caio no colchão de palha e ainda resmungo, "o Pai Natal não terá fome? devias ter deixado bacalhau".
"Dorme minha filha". E os olhos como se tivessem um iman fecham-se para o mundo dos sonhos. Não sei se sonhei. Mas parece que mesmo agora me deitei e já sinto a minha mãe a levantar-se. "Mana, mana, vamos já é dia". Escadas a baixo a correr. O que eu quero saber é se falta alguma coisa. E passo pela árvore de natal e nem vejo se tem presentes. Só quero ver se falta algo na mesa da cozinha. E falta. Em cima da mesa há migalhas das azevias e das filhoses. A chávena está suja do cacau. E até o cálice tem vestigios de vinho do Porto. Nada mais interessa. O Pai Natal esteve ali.
Os olhos do meu Pai cúmplices com a minha mãe sorriem com a nossa alegria.
Debaixo da pequena árvore de natal, o jogo da Branca de Neve para mim e o carro da polícia tão desejado pela minha Mana (não havia o Sinka). Mas o mais importante daquele dia, o que me enche de orgulho, as filhozes e as azevias da minha mãe são as melhores, o Pai Natal comeu tudo.
(Dezembro/2011)

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