quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Avó
Sempre quis ter uma avó velhinha.
Cabelo branco, cheia de rugas, velhinha, velhinha.
Hoje tenho uma avó velhinha.
Cabelo branquinho como neve. Neve que um dia caiu na serra que foi a tua casa durante tantos anos. Pequenina como uma criança, frágil como um passarinho.
Mas sabes avó? Nunca te vou ver como uma avó velhinha, velhinha.
Mas sim como a Minha Avó. A avó que enriqueceu a minha infância. A avó reguila, trabalhadora, a avó que carregava um alguidar à cabeça cheio de roupa para lavar no tanque das lavadeiras. A avó cantadeira, que bailava em todos os bailaricos da sua mocidade.
A avó que cozia, cozia… Os trapos que eram deixados pelos outros, que tu transformavas em lindas mantas aos retalhos que depois me aqueciam no inverno frio.
Vejo aquela avó, singela que comprou uma boneca, para lhe fazer um vestido branco de renda, penteou seus cabelos pretos. E depois de estar a boneca toda bonita, fizestes aqueles bolinhos de coco, o chá de ervas, o pão-de-ló, convidaste as tuas netas e as outras meninas da rua, para sermos as madrinhas da boneca no seu baptizado. Não me lembro como se chama a boneca, mas lembro-me da festa…. Porque se tiraram fotografias para um dia poder recordar. Porque a boneca ainda existe, tal como tu avó. Não sei a idade da boneca, mas a tua? 101 anos… Três velinhas no teu bolo de aniversário…
Um dia achaste um urso de peluche no mercado, e feliz vieste para casa com ele debaixo do braço. Depois de lavado e arranjado, puseste-o em destaque na tua mesa velha para que nós as tuas netas, pudéssemos brincar com ele.
Nesta altura do ano, as castanhas cozidas, já sem pele estavam sempre numa tigela em cima da mesa, para que eu pudesse “roubar” uma. E que bem que sabiam…
E as tuas castanhas assadas? As tuas bisnetas ainda dizem: “Castanhas assadas só as da bisavó”.
Tal como o feijão com couve, que fazia as delícias da minha irmã.
Não és a minha avó velhinha, velhinha cheia de rugas. Não.
Vejo-te sempre como uma mulher que trabalhou de sol a sol no campo. Lutou pela família. Foste várias vezes o homem da casa quando o avô não podia…
Sempre a rir, sempre a cantar. Mesmo nas horas mais tristes, tu sabias contornar a tempestade e mantinhas-te de pé. Mostraste-me que as mulheres conseguem vencer batalhas quando lutamos pela família. Que as mulheres engolem as lágrimas e mantêm sempre o sorriso nos lábios.
Avó, tiveste uma vida dura. Sempre a trabalhar, sempre, mesmo depois de vires para a cidade. Mas nada te impediu de seres feliz, e viveres o presente como se fosse o último dia da tua vida.
Nunca te vi chorar. Sempre de pé. Porque é de pé que morrem as árvores.
Hoje olho para ti: E digo “Quero ser uma Mulher como tu Avó”.
Outubro de 2012

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